Sensações projetadas | Edição 02/17

Sensações projetadas

por Luciana Diniz

Designer de Interiores

Cada vez mais, os clientes têm solicitado ambientes personalizados e singulares e o caminho para atender essa demanda é fazer um mergulho profundo e sem preconceitos na alma de cada cliente e traduzi-la em formas, cores e texturas. Além de considerar questões da ergonomia, das tendências e das necessidades práticas e funcionais, o profissional deve relevar o aspecto psicológico a ser impresso no novo ambiente, seja ele comercial ou residencial. A esse “astral” que se imprimi no local, chamamos de “ambiência”.

Academicamente falando, Maria Luisa Trindade Bestetti, nos diz: “o termo ambiência tem origem do francês “ambiance” e pode ser também traduzido como meio ambiente. Para melhor compreensão da sua abrangência, podemos afirmar que não é composto somente pelo meio material onde se vive, mas pelo efeito moral que esse meio físico induz no comportamento dos indivíduos. De acordo com o dicionário Aurélio, é o espaço, arquitetonicamente organizado e animado, que constitui um meio físico e psicológico, especialmente preparado para o exercício de atividades humanas.”

foto Petrônio Amaral, projeto Luciana Diniz Interiores

Essa correlação do espaço físico arquitetonicamente organizado com seu caráter psicológico, mesclando aspectos visíveis a invisíveis, denuncia e/ou revela, de maneira explícita ou não, o que há de mais íntimo em cada cliente ou o que este cliente deseja provocar nos visitantes do novo local. Sob a luz dessa abordagem, o ambiente pode revelar traços comportamentais do cliente ou pode funcionar como um catalizador de sentimentos nos visitantes que ali chegam. Ou as duas coisas.

Minha formação em Psicologia, sempre me sensibilizou para utilizar esses conceitos nos projetos que desenvolvo e percebo que, em sua maioria, os clientes não possuem muita consciência do poder de influência de um ambiente em suas vidas ou em seus negócios, passando a relevar esse aspecto quando esse conceito é apresentado junto com texturas, cores, técnicas, cálculos luminotécnicos. Ao tomarem consciência de que um ambiente opera sempre abaixo do nível da consciência, o cliente passa a valorizar ainda mais o trabalho especializado, feito por profissionais de Arquitetura e Design de Interiores, compreendendo toda a pesquisa que existe por trás de um projeto apresentado. Através de uma paginação de piso, por exemplo, pode-se imprimir um astral num determinado local, como nesse consultório de psicologia onde fiz uma paginação espinha de peixe. Minha proposta foi “quebrar” a formalidade do local imposta pela madeira escura e sobriedade das cores, trazendo um pouco de despojamento e espontaneidade ao espaço, já que minha cliente tem esses traços em sua personalidade e faz questão de mostrá-los. O vermelho do tapete e do móvel traz um pouco de vibração passional, de paixão, de amor, necessários a um espaço para o qual se confessam tantas questões íntimas – um pouco de calor faz bem.

Fotos Fábio Cançado, projeto Luciana Diniz Interiores

Elementos decorativos e arquitetônicos também podem funcionar como catalizadores de determinados comportamentos. Embora cada pessoa seja distinta e perceba o ambiente a partir de suas crenças pessoais, criando e realizando conexões particularizadas, é possível estimular sentimentos e provocar comportamentos similares em cada uma delas. Ao realizar uma organização articulada de distintos elementos subliminares, é possível conectar emoções, crenças pessoais, comportamentos e ações e criar uma determinada coerência de resultados, uma coerência de atitudes, um padrão de comportamento. Neste projeto de espaço de refeições que desenvolvi dentro de um mercado, a chita colorida cria um vínculo com a cultura brasileira e as cores de fundo dos tecidos estimulam o apetite e aquecem o local, convidando os usuários a permanecerem por mais tempo. Não é um restaurante ao estilo “coma rápido”, ao contrário, prima pela qualidade da alimentação e de vida. O uso de ripas de madeira, colhidas no próprio ambiente do mercado, tratadas e colocadas nas paredes, enfatiza uma tendência presente no Brasil já há alguns anos, que é a reciclagem, cada vez mais solicitada por clientes físicos e jurídicos. Reciclar e valorizar a cultura brasileira são alguns dos itens subliminares propostos neste ambiente, não há placas afirmando isso, mas é possível “sentir” esses conceitos sem a necessidade de serem explicitamente ditos.

Foto Petrônio Amaral, projeto Luciana Diniz Interiores

Quando o cliente confessa que o ambiente “é a sua cara”, entende-se que o projeto foi bem executado, tanto do ponto de vista dos conceitos práticos como do ponto de vista da ambiência. Nestes casos, o cliente se sente protagonista dentro de um projeto criado e desenvolvido por terceiros – o profissional de Arquitetura ou de Design de Interiores. O ambiente deixa de ser apenas um projeto e passa a ser um cenário onde o cliente sente-se o ator principal, tornando o espaço a sua segunda pele. Em meus trabalhos, sempre utilizo elementos táteis, matizes de cores, mobiliário específico para criar essa ambiência. Neste projeto residencial, a proposta era criar uma ambiência adulta e sóbria, porém sem ser fechada e triste. O amarelo, cor da juventude, inteligência e vivacidade, desponta iluminando as cores mais fechadas como o cinza, presente em quase todo o ambiente. E as plantas naturais trazem o frescor ao espaço, que é uma varanda muito aquecida devido a incidência da luz solar. Sem ar condicionado, mas utilizando uma parede verde, eu quis transmitir a ideia de frescor, desejada pelos clientes. Como essa parede é automatizada, duas vezes ao dia, as plantas recebem água e um aroma de terra fresca invade o ambiente. Então, outro item compõe a ambiência: o elemento olfativo. Os elementos olfativos, inclusive, são muito utilizados por lojas que espalham “o seu aroma personalizado” pelo ambiente, criando uma identidade olfativa nos clientes.

O uso dos preceitos da ambiência é um importante diferencial no atendimento aos clientes. Arquitetos e Designers de Interiores que utilizam esse conhecimento diferenciam-se no mercado de trabalho e promovem contribuições significativas ao público atendido. Mostram, por meio de suas competências, que um projeto é mais que um desenho e que possui, sim, valor simbólico, muita vida, intensidade, personalidade, técnica, conhecimento, estudo e objetivos específicos. Agora, como profissional, preciso confessar que satisfazer um cliente é sempre muito bom, mas mantê-lo encantado, é sublime.