Modelando informações | Edição 02/17

Modelando informações

BIM revoluciona a forma de se projetar na atualidade

 

por: Pâmilla Vilas Boas

Imagine que, em seu projeto de iluminação, ao invés de desenhar uma lâmpada com símbolos, legendas e especificações do produto, você insere uma luminária real em 3D, com todas as informações automatizadas. Isso já é possível graças ao BIM – Building Information Modeling ou Modelagem da Informação da Construção – que trabalha com modelos 3D mais fiéis ao produto final, ao contrário do desenho 2D, uma representação planificada do que será construído. O projeto em BIM pode agregar informações sobre cada detalhe, no qual todos os profissionais podem trabalhar simultaneamente no mesmo arquivo.

O arquiteto e urbanista Fernando Ramos, sócio-diretor da AIA – Ateliê Integrado de Arquitetura, explica que o BIM não é apenas uma ferramenta e sim um conceito abrangente. “É um conceito que veio para ficar por que ele automatiza processos e integra profissionais. Imagine um arquiteto que passa o projeto para o meu software, que passa para o engenheiro dar continuidade ao projeto, enxergando o meu modelo 3D. E o melhor: é que ele acessa as informações que estão dentro dos componentes”, afirma.

Para Fernando, o BIM é uma revolução e impacta diretamente a construção civil, arquitetura, decoração, design de interiores e toda a cadeia envolvida. Impacta também o designer de produtos, que pode projetar um produto, materializar essa ideia em 3D, observar de dentro e de fora, fazer diversas análises e testá-lo à exaustão. Hoje, com a impressão 3D, ele pode, inclusive, imprimir o próprio produto.

O BIM pode abranger ainda todo o ciclo de vida de uma edificação, do planejamento e concepção até a demolição do edifício, envolvendo todos da cadeia de produção, inclusive o cliente.  Trata-se de um banco de dados que contém as informações do projeto de forma consistente e coordenada. “Se alguém alterar algo no projeto, isso fica visível para todos. Agiliza, traz mais qualidade na concepção dos projetos, evita erros e retrabalhos”, ressalta.

O BIM pode integrar o  fornecedor de móveis ou equipamentos, à indústria, ao fabricante de aço, engenheiro ou arquiteto, por exemplo. “Como o BIM é muito vasto, a forma de utilizar e se beneficiar são as mais diversas possíveis.  E isso ainda é algo novo para a indústria da construção civil”, aponta. O arquiteto explica que, enquanto no Autocad se desenha um quarto na planta, depois em corte etc, no BIM é possível modelar esse ambiente automaticamente (de planta, corte, elevações e perspectivas). É como se uma câmera estivesse filmando esse desenho de cima, de lado, cortado e, se você mudar o projeto, todos os desenhos serão atualizados.

“Se considerarmos que a tecnologia de realidade aumentada está avançando rapidamente e a associarmos ao BIM, em breve, com o uso de smartphones, tablets e ferramentas como o Google Glass, poderemos visualizar o projeto no local em que ele será construído. Isso, antes mesmo de terminá-lo e interagir com ele, entre outras facilidades”, avalia.

Apesar de todas as inovações, o BIM ainda está engatinhando no Brasil. Fernando avalia que a maioria das empresas não conhecem o sistema ou ainda estão em fase inicial de implantação e utilização, mesclando modelagens com desenhos tradicionais em 2D gerados por softwares CAD.

“Porém, essa realidade deve mudar em breve com uma futura obrigatoriedade de utilização do BIM para aprovação dos projetos. Em Singapura só se aprova nesse conceito em poucos dias. No Brasil são seis meses ou mais para aprovar um projeto”, exemplifica.

Novo paradigma

O BIM representa uma nova ruptura de paradigma assim como quando nasceu o Autocad e os profissionais deixaram de desenhar na prancheta, afirma Fernando.  “Essa etapa foi uma baita revolução para a indústria. Um escritório que tinha vários desenhistas, de uma hora para outra vai investir em computador e em profissionais que sabiam manusear essas ferramentas digitais”, relata. Da mesma forma, com a evolução dos softwares e da computação para a modelagem, paramos de desenhar em 2D para modelar em 3D. “Os softwares tiveram a oportunidade de transmitir informações dentro do modelo. Quando o CAD evoluiu, ele também passou a fazer 3D, mas se você tem um prisma retangular, você não sabe se é uma viga ou um duto de ar condicionado. Com o BIM é diferente, você clica e ele vai falar: é um duto de ar condicionado, com tal espessura, X fabricante, vai ser instalado na data X, por fulano e isso muda a forma de projetar”, avalia.

Fernando ressalta que algumas funções serão modificadas com o BIM. “Da mesma forma como um escritório que desenhava e passa a usar computador, você não vai ter mais um copista, hoje a gente deixa de ter umas funções para agregar outras. Estamos construindo um modelo que pode ser composto de elementos em 3D, uma mesa, ar condicionado etc.  Um profissional precisará gerar essa biblioteca de componentes e manter atualizada com as informações pertinentes. É um trabalho que não existia e os escritórios vão ter que investir em profissionais capacitados para gerar essa biblioteca, dentre outros exemplos”. No entanto, o arquiteto destaca que, como BIM representa todo o processo de criação e desenvolvimento de um empreendimento, podem existir etapas em que um simples elemento 2D cumpre a função. “Por exemplo, se o modelo atender a um objetivo de Projeto em Estudo Preliminar para a definição de layout de ambiente, o projetista pode utilizar “blocos” 2D de mesas e cadeiras e futuramente ele poderá “trocar” de forma rápida e prática estes elementos 2D por elementos modelados em 3D”, afirma.

Para ele, um profissional cadista, por exemplo, pode estar com dias contados, já que o BIM demanda um grau maior de capacitação. “Tem que ser o próprio arquiteto ou engenheiro, porque ele está modelando e tomando decisões, não está representando ou desenhando algo, está construindo”.

A dica de Fernando para o escritório ou empresa que queira implementar o BIM é a contratação de um consultor especializado para orientar essa implementação e execução. “Muitas empresas fazem por conta própria e acabam não tendo um resultado satisfatório e voltam aos métodos tradicionais”, completa.

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