A Neurociência e a arquitetura humana

 

por: Ana Cláudia Ulhôa

Parece um casamento improvável, mas neurologistas e arquitetos estão se unindo para criar construções que aprimoram a mente humana. Escolas que estimulam o aprendizado, hospitais que aceleram a cura e escritórios que facilitam a produtividade enquanto promovem o bem estar. Essa metodologia é a especialidade de Priscilla Bencke, uma das maiores autoridades em neuroarquitetura do país.

Como ela mesma diz, o conceito ainda é muito novo no Brasil, por isso, buscou formação no Mensch&Büro Akademie, na Alemanha, e retornou com uma forma de fazer arquitetura adaptada à realidade brasileira. “A base do nosso trabalho no escritório [Bencke Arquitetura] são as pessoas. Nossa metodologia é totalmente voltada para o indivíduo”, conta.

O foco no humano faz parte do conceito “Qualidade Corporativa: Smart Workplaces”, criado por Priscila e aplicado em diversas empresas atualmente. Ela explica que, após definir o escopo do projeto com a direção das firmas, é aplicado um questionário aos funcionários para avaliar as necessidades e os anseios das pessoas que trabalham ali.

Amplos ambientes externos e vegetação natural são fundamentais para o bem estar das pessoas no trabalho. Foto: divulgação

O espaço de trabalho é desenvolvido individualmente, de acordo com as necessidades de cada um.  Foto: divulgação

“Pedimos para conversar com cada um dos colaboradores para tentar ter a máxima empatia e se colocar no lugar de cada pessoa esaber como ela percebe o espaço ao redor dela”, detalha. A partir disso, o escritório define o perfil, tipo de atividade, identifica questões de saúde, ergonomia e uma série de outras características.

Na segunda etapa, são realizadas medições no espaço físico, como aferição da iluminação e da ventilação, além de avaliar o ambiente com base em normas oficiais, como a NR-17, que trata da ergonomia e da segurança no trabalho.

Em seguida, todas essas informações são compatibilizadas, e é desenhado um módulo único, específico para cada usuário, atendendo a todas as necessidades de conforto, ergonomia e segurança. “É uma forma muito interessante de se trabalhar, porque as pessoas se sentem valorizadas, e isso cria, além de mais produtividade, um engajamento enorme com a empresa”, ressalta Priscilla.

O projeto é então desenvolvido no computador e construído utilizando os conceitos da neuroarquitetura, como iluminação natural, cores e elementos da natureza. “Fizemos um projeto para uma grande empresa que mudou de cidade. A ideia era pensar um ambiente tão agradável que as pessoas não se importassem de dirigir uma hora a mais para ir trabalhar”, diz Priscila.

Foi projetado um ambiente com muito verde, muita luz natural e postos de trabalho voltados para um belo jardim interno. “Precisamos ter contato com elementos naturais. A pesquisa Human Spaces, realizada na Inglaterra, mostra um aumento de 15% na sensação de bem estar e criatividade, além de 6% na produtividade”.

Para ela, “o olhar mais humano é o futuro da arquitetura”, mas é preciso mais pesquisa e conhecimento sobre a neuroarquitetura para que a prática se torne comum no Brasil. Por isso, em parceria com o Mensch&Büro Akademie, ela organiza cursos de formação para arquitetos que queiram ter uma relação mais humanitária com seus projetos.

 

Priscilla Bencke, responsável pela Bencke Arquitetura e criadora do conceito Qualidade Corporativa: Smart Workplaces. Foto: divulgação