Luz Social | Edição 02/17

Luz Social

Uma nova maneira de se enxergar a luz

por: Ana Cláudia Ulhoa

Desde de 2015, quando a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) determinou que todos os ativos de iluminação passassem a ser geridos pelos municípios, a iluminação pública começou a caminhar com passos mais largos no Brasil. Cidades como Curitiba, no Paraná, e Florianópolis, em Santa Catarina, adotaram novas tecnologias e, principalmente, uma nova maneira de se pensar esse serviço, que interfere na vida de todo cidadão.

O lighting designer, diretor da operação Citylights e um dos fundadores da Associação Brasileira de Arquitetos de Iluminação (AsBAI), Plínio Godoy, ressalta que, mesmo que a iluminação pública dos municípios brasileiros ainda esteja em níveis diferentes de desenvolvimento, a tendência é a adoção de novas tecnologias e soluções direcionadas mais “para as pessoas e não para os fotômetros”.

Em entrevista à Revista iDeia Design, Godoy explica qual a importância desse processo, compara a situação da iluminação pública do país com a de outros lugares do mundo e dá detalhes sobre seus cases de sucesso, como os projetos da Universidade de São Paulo (USP), Av. Paulista e Ponte Estaiada Octávio Frias, em São Paulo.

Ponte Estaiada Octávio Frias, em São Paulo. Projeto de Plínio Godoy. . Foto: divulgação

Universidade de São Paulo (USP). Projeto de Plínio Godoy. . Foto: divulgação

Ri: Quais cidades brasileiras você considera referências em iluminação pública?

PG: Estamos em um processo, que se iniciou com o estabelecimento da responsabilidade dos municípios para com a iluminação urbana. A princípio, percebo algumas cidades desenvolvendo processos mais estruturados de gestão do parque de iluminação, quer por estrutura própria quer por desenvolvimento de Parcerias Públicas Privadas (PPPs).

Há cidades onde o nível de gestão estão acima da média, atingindo qualidade buscada em processos de gestão profissional, outras ainda em estado inicial de pesquisa e estudos, buscando estabelecerem processos vantajosos para seus orçamentos.

Como exemplos, posso citar a cidade de Curitiba e Florianópolis como duas cidades que visitei e constatei bons níveis de qualidade nos sistemas para seus cidadãos.

Ri: Como o Brasil se situa no cenário internacional em relação a esse tema?

PG: Se considerarmos a questão da gestão, entendo que estamos buscando o que há de atual no cenário mundial, com as cidades atendendo seus cidadãos em termos de qualidade dos serviços.

Ainda, no Brasil, o padrão vapor de sódio de alta pressão é a base do sistema, permeado pelos sistemas mais antigos, como vapor de mercúrio e até incandescentes.

No quesito da migração tecnológica para o LED, percebo que estamos um pouco atrás face aos grandes investimentos que países próximos já estão fazendo. Buenos Aires, por exemplo, para citar nossos vizinhos, além de uma migração mais intensa nos países da América Latina, do Norte, Ásia e Europa.

Estados Unidos e Europa adotando processos mais cautelosos, com o desenvolvimento de normativas mais voltadas para a qualidade da luz e não tanto para a eficiência dos sistemas.

Vejo aqui uma primeira onda de migração e agora uma visão mais ampla da qualidade face aos exemplos que foram constatados, como baixa especificação para nossos sistemas elétricos, qualidade da luz ruim para as pessoas, enfim, seguindo a curva de aprendizado.

Avenida Paulista. Projeto de Plínio Godoy. Foto: divulgação

Ri: Como você vê o futuro da iluminação pública no mundo? 

PG: Não acredito que podemos considerar um futuro da iluminação pública somente, pois temos várias regiões com diferentes premissas, e isso é o que me encanta nesse tema. O que eu entendo como futuro será a utilização dos sistemas digitais, lembrando que a tecnologia LED é um sistema digital, totalmente eletrônico, e que isso introduz a IP no mundo dos serviços digitais.

Com certeza os sistemas de IP serão parte dos sistemas de TI, integrarão informações e serviços aos munícipes, novas plataformas de negócios e facilidades para a gestão pública, teremos o fator tempo inserido na equação, pois sabemos que a cidade, como um elemento vivo, carece de luz diferentemente em momentos diversos da noite.

Teremos as tecnologias urbanas integráveis; a produção de energia através da captação solar,  minimizando os investimentos de geração; antenas e conexões sem fio, dados em larga escala, ajudando sistemas de gestão e controle, enfim, será um mundo conectado.

Ri: O seu escritório desenvolveu a iluminação da USP, da Av. Paulista e da Ponte Estaiada Octávio Frias, por exemplo. Quais foram suas prioridades ao desenvolver esses projetos? Como você usa a tecnologia para revitalizar locais tradicionais?

PG: A Citylights é uma operação que se iniciou em 2014 [que visa o desenvolvimento de soluções em iluminação e tecnologias urbanas baseando-se nos estudos técnicos, urbanísticos e antropológicos], a experiência que tivemos com o desenvolvimento desses projetos antecede essa data, porém realmente os projetos citados foram desenvolvidos por mim.

O termo “prioridade” pode ser estabelecido como “as técnicas e recursos aplicados para atingirmos os objetivos do contratante”.

O que isto significa? Que antes de qualquer projeto busco entender os anseios do cliente, quer seja uma pessoa ou um município, teremos sempre questões como orçamentos envolvidos, resultados e integrações a serem consideradas, resultado de um processo que chamo de “Técnico-Artístico”, pois é sempre uma conjunção de diferentes pontos de vistas.

A USP, por exemplo, teve seu mote focado na segurança, pois aconteceu após alguns ocorridos de insegurança pessoal e criminalidade. Assim, buscamos entender todo o campus e seus usos, os caminhos oficiais e oficiosos utilizados por sua população, durante à noite. Utilizamos a tecnologia LED para também estabelecer na USP um grande laboratório, utilizando essa tecnologia aliada à sistemas de Telegestão.

A Av. Paulista foi desenvolvida no contexto da eficientização de energia, com recursos de PD da Eletropaulo em convênio com a Prefeitura de São Paulo. Nesse projeto utilizamos o que mais moderno existia no momento, as lâmpadas Vapor Metálico tipo CDM-T Elite, com 315W. Imagine que substituímos 16 lâmpadas de Vapor de Sódio de 400W por 06 lâmpadas CDM-T Elite de 315W, uma redução de energia na casa dos 60%, elevando a iluminância média na via de 12 Lux para 50 Lux. Nesse caso, utilizamos também a Luz Branca, demonstrando na prática os benefícios que há muito tempo apresentava em artigos e palestras.

O que obtivemos foi o renascimento da Av. Paulista quer no âmbito social, com mais pessoas utilizando os espaços durante à noite, quer no aspecto microeconômico, quando observou-se um aumento das atividades de serviços e comércio, restaurantes e “foodtrucks”. Um case internacional das vantagens da Luz Branca, hoje em dia já entendido e assumido em várias cidades no Brasil.

A Ponte Estaiada Octávio Frias de Oliveira foi um presente que recebi do saudoso arquiteto urbanista João Valente, que me convidou para fazer parte de sua equipe de estudos de um elemento urbano icônico para São Paulo. Foram muitos anos e noites pensando nas consequências de cada escolha para a paisagem de São Paulo.

Nesse projeto tivemos que alinhar a elegância e personalidade da construção e sua luz, lida com tecnologias novas para a época, os LEDs RGBs, programações e controles digitais, a utilização dessas tecnologias em uma construção sobre o Rio Pinheiros, qualidade de energia, a consequência energética de uma torre e cabos próximos à geração da Rede Globo e linhas de alta tensão, como proteger os sistemas e mantê-los funcionais por muito tempo.

Recentemente houve uma nova iluminação LED de geração mais nova mantendo-se o projeto, doação do fabricante dos equipamentos originais utilizados, a Philips Lighting.

Como utilizo a tecnologia? Como uma das ferramentas possíveis disponíveis, não como fim mas como meio de alcançarmos nossos objetivos. Sempre o conceito é primordial, como alcançá-lo, qual técnica ou tecnologia, é um segundo degrau na obtenção do sucesso.

A iluminação urbana é um universo de análises, estudos, trocas de visões diferentes entre os inúmeros participantes dos assuntos, os Stakeholders, e o mais importante é a seriedade com que deve ser considerada, pois mexe definitivamente com a vida das pessoas e sua qualidade de vida. Eu, particularmente, sou absolutamente adepto do conceito da Luz Social, pois tudo o que fazemos e investimos, são, por último, feito para as pessoas e não para os fotômetros.