Inovação humanitária para refugiados na Europa | Edição 02/17

Inovação humanitária para refugiados na Europa

Arquiteta iraniana oferece solução para moradias

por: Ana Cláudia Ulhôa

A ideia de inovação, em geral, é associada à tecnologia, computadores, circuitos e o mundo digital. Mas, o espírito da inovação é uma ideia simples, aplicável e com a capacidade de influenciar positivamente a vida de muitas pessoas na vida real. Esses conceitos de sustentabilidade e humanidade foram usados pela jovem arquiteta iraniana, Narges Mofarahian, para criar o AGRIshelter, um lar temporário auto-construtível feito com materiais simples, como palha e madeira. Inicialmente, o projeto foi uma resposta para a crise de refugiados na Europa, considerada, pelas Nações Unidas (ONU), a maior da história, que já movimentou mais de 65 milhões de pessoas.

“Comecei a trabalhar com a questão dos refugiados em 2015, quando muitos países europeus abriram suas fronteiras para os imigrantes. Nós sabíamos que a Europa enfrentaria grandes problemas para acomodar esse enorme fluxo de pessoas. Havia uma preocupação com a situação desumana que existia em muitos casos relacionados com o acolhimento de refugiados, então tentei criar um projeto prático e executável”, conta Mofarahian.

Simulação da instalação de uma pequena comunidade construída com o AGRIshelter.  Imagem: divulgação

São utilizados materiais baratos, abundantes e biodegradáveis na construção das moradias.  Imagem: divulgação

A construção em módulos permite que os próprios refugiados construam seus lares. Imagem: divulgação

O abrigo tem 35m² e é isolado térmica e acusticamente de forma natural, o que garante conforto para quem mora no local e da vizinhança. “É um lar confortável e digno de se viver”, reforça. A situação dos refugiados é temporária, em grande maioria das vezes, então, a arquiteta se preocupou em desenvolver paredes, cômodos e mobília com matéria prima local e biodegradável, para que o conjunto seja de fácil demolição e não deixe rastros de carbono ou qualquer tipo de poluição nas cidades onde sejam instalados.

Durante sua pesquisa para desenvolver o AGRIshelter, Narges descobriu outro problema, tão grave quanto o da moradia, que é a integração social e cultural dos imigrantes refugiados com os moradores locais. “Construir sua própria moradia é um processo muito gratificante. Além disso, envolver a comunidade local nesse processo faz tudo ter mais sentido. Isso cria um motivo para as pessoas se conhecerem, aprenderem juntas e construírem caminhos para uma integração futura”, explica.

O projeto ainda permite o cultivo de alimentos e plantas em jardins comunitários ao redor das casas, o que estimula a integração e colabora com a autossuficiência das comunidades. Isso também diminui o consumo de produtos industrializados e incentiva a economia local.

Assista ao vídeo [em inglês] sobre o projeto AGRIshelter, da arquiteta Narges Mofaharian.

A América Latina e outros lugares do mundo têm problemas de moradia e disparidade social semelhantes às enfrentadas pelos refugiados na Europa. As favelas e os lixões brasileiros, por exemplo, são exemplos terríveis disso. Mas, projetos como esse podem ajudar a abrigar com dignidade essa população. “A tendência é sermos flexíveis quanto à função. O mais importante é oferecer soluções inovadoras para pessoas em dificuldades, soluções sustentáveis que realmente façam a diferença. Queremos gerar economias locais sustentáveis e integrar as pessoas, independentemente de onde e para quem”, diz a arquiteta.

O AGRIshelter foi um dos vencedores do desafio Refugee Challenge, promovido pela plataforma What Design Can Do, em 2016, com patrocínio da Fundação IKEA para estimular projetos de inovação e design.

Este ano o tema principal é a mudança climática. “Acredito que a inovação é EXATAMENTE o que precisamos para resolver os problemas que afetam as vidas de milhões de pessoas atualmente! Sou sempre otimista em relação a isso e espero que as sociedades se tornem mais e mais abertas a isso”, completa.

A arquiteta faz parte de uma organização sem fins lucrativos, que promove a arquitetura humanitária pelo planeta. Além desse projeto, Narges trabalha em novas funções, como alojamentos para sem-teto e parques infantis para campos de refugiados.