A inovação em projetos arquitetônicos | Edição 02/17

A inovação em projetos arquitetônicos

Arquiteta e urbanista Regina Padilha revela que decisões simples podem proporcionar

ambientes mais confortáveis e com menor impacto ambiental

por: Pâmilla Vilas Boas

É possível realizar bons projetos arquitetônicos e de baixo custo incluindo critérios bioclimáticos. É o que a arquiteta e urbanista Regina Padilha, mestre em Meio Ambiente, revela em seus projetos, pesquisas e debates sobre o tema. À frente do escritório Pura arquitetura, ela vem conscientizando profissionais e clientes sobre a importância da interação do edifício construído com o meio natural e que decisões simples podem proporcionar ambientes mais confortáveis e com consequente redução do consumo energético. A arquiteta aponta que até 90% do impacto ambiental de um edifício é determinado por essas primeiras decisões de projeto. Confira a entrevista:

Casa do condomínio Alphaville em Belo Horizonte construída para atender os critérios básicos da arquitetura bioclimática

Quais são os principais conceitos envolvidos na elaboração de um projeto bioclimático?

O termo arquitetura bioclimática provém da interpretação bioclimática da arquitetura, ou seja, como os efeitos do clima sobre o homem (o bios) interferem em sua morada ou abrigo. Nesse contexto, o principal conceito envolvido seria a interação do edifício com o seu meio natural, o que leva à análise das relações entre arquitetura e lugar ou forma e clima. Os aspectos prévios a se considerar em qualquer desenho arquitetônico são: disposição, orientação, forma, massa e fenestração. O resultado dessas decisões iniciais pode levar a ambientes interiores mais confortáveis, com consequente redução de consumos energéticos. Estudos mostram que até 90% do impacto ambiental de um edifício ou produto é determinado por essas primeiras decisões de projeto.

A casa em Alphaville contempla ainda um teto verde que ajuda a climatizar as partes de uso comum da casa, sala e cozinha

Quais as principais mudanças no processo de criação e execução dos espaços habitáveis?

A preocupação estética e o uso de novas tecnologias e materiais desviaram a atenção dos projetistas dos princípios mais básicos da arquitetura como, por exemplo, a correta orientação solar, o aproveitamento da ventilação natural ou a utilização de materiais autóctones, ou seja, naturais da região onde ocorrem. Além disso, o adensamento populacional, com a consequente diminuição dos terrenos e as restrições impostas pelas Leis de Uso e Ocupação do Solo das cidades – somado às exigências do mercado imobiliário, também corroboram para a prática de uma arquitetura menos consciente ou menos responsável, muitas vezes. Trato aqui do processo de criação e execução dos espaços habitáveis mais comuns nas cidades, como edifícios residenciais e comerciais, que representam a maioria das construções.

Como a sustentabilidade pode ser pensada em pequenos e grandes projetos? Quais as inovações envolvidas?

A palavra sustentabilidade é muito ampla e abrange toda a cadeia de construção. Para que um projeto, independente do seu porte, seja considerado sustentável, ele deve cumprir uma série de requisitos que passam desde a sua implantação, ou seja, como ele interage com a paisagem urbana, até o nível de utilização de energias renováveis, como solar ou eólica, por exemplo. Passa ainda por questões sócio culturais, como aceitabilidade, ou econômicas, como o aproveitamento racional dos recursos naturais, gestão da água, entre outros. 

 

Todas essas questões que promovem práticas de sustentabilidade podem ser analisadas de forma a se conseguir uma certificação. Existem alguns processos de certificação no Brasil que podem ocorrer em diferentes níveis mas,

Planta do anexo em uma casa de campo no condomínio Águas Claras em Brumadinho

geralmente, atraem empreendimentos de maior porte. Um selo bastante conhecido é o LEED – Leadership in Energy and Environmental Design (ou Liderança em Energia e Desenho Ambiental), de origem americana. O LEED avalia critérios como a qualidade ambiental interna dos espaços, a eficiência do uso da água, os materiais e recursos utilizados, as inovações do projeto e os processos, por exemplo.

Em pequenos projetos, a simples inclusão de algumas práticas faz toda a diferença no aproveitamento dos recursos naturais. Sistemas econômicos de uso da água – torneiras com sensor de presença e vaso sanitário com duplo acionamento – ou o próprio reuso da água de chuva para irrigação gera grande economia. No setor de iluminação as lâmpadas de led são a bola da vez. Com preços cada vez mais acessíveis, revolucionaram o mercado com produtos que desperdiçam pouca energia, não esquentam (o que também contribui para o conforto ambiental do espaço) e, a cada dia, se aproximam mais das lâmpadas tradicionais em termos de qualidade de luz. Outro exemplo seria a escolha dos materiais a serem utilizados. Os produtos denominados verdes, ou seja, que possuem algum grau de segurança ao meio ambiente durante o seu processo de fabricação e/ou descarte, são os mais recomendados, embora ainda escassos no mercado brasileiro quando comparados à oferta de produtos do segmento. Mas, ainda assim temos bons exemplos: 1) Alvenarias: tijolos cerâmicos com boa eficiência térmica; tijolos de concreto reciclado; tijolo de solo-cimento e placas cimentícias; 2) Alvenarias internas: o gesso acartonado reduz desperdícios e, por ser bem mais leve que uma parede de alvenaria, supõe uma economia no dimensionamento estrutural; 3) Madeiras de reflorestamento; 4) Acabamento: tinta, colas e seladores são materiais triviais em obra, mas que podem afetar duramente o meio ambiente por conterem substâncias orgânicas tóxicas derivadas do petróleo e compostos voláteis altamente poluidores ao contato com córregos e lençóis freáticos. Contudo, temos no mercado uma grande oferta de produtos feitos à base de água ou óleos vegetais que descartam o uso de produtos químicos prejudiciais à saúde.

Essas práticas, somadas àquelas corretas decisões iniciais de projeto, anteriormente mencionadas, propiciam enorme ganho ambiental ao empreendimento, seja ele de pequeno ou grande porte.

Por que isso se reflete em toda a cadeia produtiva da indústria da construção?
As construções e a atividade humana alteram física, química, biológica e socialmente o âmbito em que se desenvolvem e, portanto, provocam modificações no meio ambiente e no equilíbrio ecológico do lugar. Os edifícios encontram-se entre os consumidores mais vorazes dos recursos naturais do planeta e são responsáveis por uma parte significativa das emissões de gases de efeito estufa que afetam as mudanças climáticas, de modo que a construção civil é considerada vilã do meio ambiente. O percentual de desperdício de materiais em uma obra pode representar quinze por cento do custo total dela. Desse modo, apenas com uma maior evolução dos sistemas de produção de materiais, de construção, e uma mudança de comportamento, tanto dos projetistas quanto dos consumidores, será possível inverter esse quadro de destruição ambiental.

O projeto do anexo é antigo e nunca teve problemas de infiltração por causa da vegetação sobre a laje.
Regina explica que a infiltração é decorrência de uma impermeabilização mal feita e não da vegetação

Como os arquitetos têm incorporado o design nos projetos bioclimáticos?

Geralmente, quando as pessoas pensam em projetos bioclimáticos ou sustentáveis, dois estereótipos vêm à mente de imediato: 1) projetos mirabolantes e totalmente tecnológicos, com custos altíssimos de construção ou 2) projetos arcaicos, que reproduzem sistemas construtivos passados, como paredes de barro, coberturas de palhas etc. Essas duas referências estão muito distantes da realidade do mercado. É importante que as pessoas se conscientizem que um projeto pode ser responsável e contribuir com alguma parcela para a preservação do meio ambiente, sem, no entanto, ser estereotipado ou custar mais caro. Nesse momento de decisão de projeto, o arquiteto tem um papel importantíssimo, que é o de informar a seu cliente e defender o produto que ele acredita, que também pode ser bonito e acessível. E aqui está o grande problema: a falta de educação na profissão.

Lance Hosey, especialista em construção verde e autor do livro The Shape of Green: Aesthetics, Ecology e Design (Island Press, 2012), primeiro estudo das relações entre beleza e sustentabilidade, aborda uma simples pergunta: Será que a sustentabilidade muda a face do design ou apenas seu conteúdo? Lance aponta  exemplos recentes de grandes arquitetos com reconhecimento mundial que descartaram publicamente a sustentabilidade como uma mudança definitiva na profissão. “O verde e a sustentabilidade não têm nada a ver com a arquitetura”, disse o vencedor do Prêmio Nacional de Design (EUA), Peter Eisenman. Frank Gehry, outro arquiteto consagrado mundialmente e medalhista de ouro do AIA – Instituto Americano de Arquitetura, referiu-se à sustentabilidade como algo “falso”. E o autor também levanta o debate: Quando muitos líderes da arquitetura não conseguem levar os desafios mais urgentes de hoje a sério, como podemos esperar que a base da profissão faça isso? Lance defende uma nova concepção da arquitetura em que o bom Design e o design sustentável estejam integrados. Enquanto isso, felizmente, encontramos pelo mundo inúmeros exemplos de belíssimos edifícios sustentáveis, sejam eles tecnológicos ou extremamente simples, de modo que o design não é separado da sustentabilidade – é a chave para isso.

A grama ajuda a climatizar o ambiente abaixo da laje já que bloqueia a entrada do calor do sol

Por que  a arquitetura bioclimática pode ser considerada a vanguarda da arquitetura?

Desde o final da década de 70, após a crise mundial de energia, o homem se deu conta de que as energias artificiais (petróleo) não eram um bem ilimitado. Tal constatação levou à necessidade de redefinição dos conceitos de um edifício moderno, funcional e esteticamente. Desde então, passamos por um processo de transição na forma de viver e ver o mundo, no qual o meio ambiente torna-se o ator principal. Já não é possível ver o mundo sem enxergar as necessidades básicas do meio ambiente, para nossa própria sobrevivência.

A exploração dos recursos naturais do lugar abaixo da sua capacidade de renovação é condição sine qua non para o planeta e a arquitetura tem papel relevante nas respostas que o homem dará a esses desafios que ele próprio criou, como mudanças no processo de concepção e execução dos espaços habitáveis e seus reflexos em toda a cadeia produtiva da indústria da construção.

Outra perspectiva do projeto do anexo no condomínio Águas Claras