Edson Matsuo, um designer apaixonado

Entrevista com o diretor de criação da Melissa 

por: Pâmilla Vilas Boas

“Qual é a emoção que você traz para esse encontro?” Edson Matsuo começa a entrevista por telefone com uma pergunta inusitada. Ainda confusa respondo que estou tranquila apesar do dia atribulado. “Eu também vou dividir minha emoção com você, tá?”. O que, a princípio, pode parecer estranho, na verdade revela muito sobre a forma do designer e diretor de Criação da Melissa, há mais de três décadas, enxergar os processos de criação e inovação no design.  “A questão é assumir que somos seres emocionais e que não existe problema de casa e problema da empresa. Existe um único problema e um único desafio”, afirma.

Na véspera de fazer o vestibular para engenharia, Matsuo optou pela arquitetura e foi desenhando caricaturas no cursinho que descobriu que poderia ter prazer no trabalho. Edson se tornou cartunista, comunicador visual e ilustrador e recebeu um convite para trabalhar com calçados. Num primeiro momento ele recusou, por não entender do assunto. Mas, logo depois ele se tornou o chineleiro de plástico reconhecido internacionalmente e responsável por coleções que marcaram gerações. Confira a entrevista:

Edson Matsuo é designer e diretor de Criação da Melissa há mais de três décadas

O que significa inovação para você?

Para mim é algo que você faz e que tem uma aderência exponencial para além do que você imaginou. É aquilo que resulta mais das pessoas que vão usar do que você determinar que é inovador. O projeto não nasce inovador, ele é feito para inovar, mas não quer dizer que ele inovou se você não puder medir. Agora, inventar é outra coisa. Nem sempre uma coisa inovadora é uma coisa realmente nova. A invenção não quer dizer que, nesse momento, vai dar um bom resultado, pode dar depois. Invenção e inovação são coisas diferentes. Inovação não quer dizer uma coisa nova, você pode ressignificar algo que sempre existiu de uma forma diferente que é contextualizada no mercado, que adere exponencialmente a isso.

A inovação que eu mais sou apaixonado não é a tecnológica, mas sim como as pessoas são felizes trabalhando juntas para um mundo melhor. Este ano a Melissa fez um desfile no meio da produção, em Fortaleza,  junto com as operárias,  que também desfilaram. Isso é uma forma de agregar as pessoas e essa é a nossa vibe. É uma cultura empresarial muito diferenciada e isso se reflete na prática.

No projeto One by One é possível comprar apenas um pé ou nove pés que resultam em 81 opções de uso

Inovação então significa fazer muitas perguntas?

Existe uma ansiedade hoje para fazer produtos inovadores no mercado, por isso é muito importante fazer muitas perguntas do que simplesmente dar respostas. Hoje, na academia, somos treinados a dar respostas com muita rapidez.  A inovação é resultante de muitas perguntas e não de respostas curtas, simples e superficiais.

Como lidar com isso num mercado que tem ansiedade por resultados rápidos. Como você lida com esse dilema em seu cotidiano?

Essa questão é muito simples e tem a ver com cultura. Não é só a empresa, a pessoa tem que estar apaixonada pelas perguntas. Agora, existe um processo e existe o momento de fazer perguntas e de tentar as respostas e não devemos misturar as duas coisas. Você não vai colocar muitas perguntas num momento em que já foram feitas muitas perguntas. É o momento de você ver quais são os protótipos das respostas que você pode resolver. Tem hora da iniciativa e tem hora da acabativa. Tem muita coisa que você cria, mas tem que terminar, tem que acabar.

O projeto One by One mexeu com o modelo de negócio e com toda um modo de pensar o calçado em pares

Como trabalhar com toda equipe em processos de co-criação?
Hoje sou muito mais um ativista para manter o espírito de um trabalho de confiança entre os pares de colaboração, do que alguém que determina o que deve ser feito.  Eu percebo que tem talentos fantásticos dentro da equipe e vou construindo junto deles. O processo principal é como cada um traz sua emoção para o  trabalho. A questão é assumir que somos seres emocionais e que não existe problema de casa e problema da empresa. Existe um único problema e um único desafio. Atualmente, eu estou estudando ontologia que é o estudo do ser humano. Esse é o ponto vital para você construir uma equipe: como  você é capaz de oportunizar o ser de cada um dentro de uma equipe? Isso requer uma grande diversidade.

 

Você acha que esse processo e essa emoção transparecem nos produtos? 

Eu não acho, tenho certeza. Você tem avós? Você mora com seus pais ou os visita? Eles fazem uma comidinha que você gosta? Essa comidinha é ruim ou gostosa? É feita com amor ou com ódio? Então, é exatamente isso. O que você faz com amor a outra pessoa recebe com amor. Eu não acredito que se você fizer algo como obrigação, não num lugar de amor que você quer oferecer para mais pessoas a outra pessoa, não vai receber isso.  Por isso eu pergunto como você chegou, qual foi sua emoção. Isso faz parte desse trabalho. Você sabia que o nome do trabalho no passado era sacro ofício? O trabalho era sagrado e virou sacrifício. O significado de Melissa é sacerdotisa que traz o néctar da vida.  No fundo é uma leitura da abelha que traz o mel, a polinização. O néctar da vida é o amor. Nós escolhemos esse nome sem saber o significado.  Esse significado nos escolheu.

Como é o processo de design na Melissa?

Nosso processo é normal, estudo preliminar, layout, discussão, pesquisa de tendência, bidimensionalização, tridimensionalização, isso é o bê-á-bá. A questão é como as pessoas tocam tudo isso. O espírito. Existe muito chavão do design emocional, mas ele começa com a verdade da emoção de cada um no projeto e não na tendência que foi determinada. Falam de emoção como se fosse uma promoção. Design emocional com os outros e não contigo. Tem que trazer a emoção para o ambiente de trabalho. Essa é a diferença do design parecer e aparecer diante do design do ser.

O que significa design para servir?

O design tem que ter consciência sobre sombra e luz. O design para servir começa numa viajem, uma jornada que ninguém pode fazer por ele, só o design pode se aprofundar nele mesmo para servir ao próximo e ao mundo. Eu não deixo de estar fazendo essa entrevista a serviço de ti, dividindo minhas visões. A frase do design para servir é: design que não serve, não serve. Quando cai a máscara de oxigênio no avião qual é o procedimento recomendado? Primeiro você coloca a máscara para depois ajudar os outros. O próprio design tem que ter esse oxigênio para depois estar a serviço do outro no sentido de opções para um mundo melhor.

Por que o projeto One by One é tão inovador?

O projeto teve como proposta mexer com a maneira convencional em que era vendido o calçado em pares. No One by One  você podia comprar um pé ou nove pés que resultavam em 81 opções de uso que as amigas poderiam, inclusive, trocar. Eu recebi dois e-mails que me deixaram muito emocionado. Um foi de uma menina de 26 anos que tinha apenas um pé me relatando que nunca nenhuma marca olhou para a necessidade dela. Outra usuária recomendou que fosse vendido também em clínica ortopédica por que ela tinha quebrado a perna e agora tinha a oportunidade de comprar apenas um pé até melhorar. Isso também é estar a serviço das pessoas. Possibilitar que dois ou três filhos deem um pé de cada para a mãe. O projeto muda a maneira de interagir com o produto e de ofertar para o outro.

Como surgiu a ideia?

Na história dos calçados existe um chinelo japonês que não tem lado, existe também um calçado indiano muito tradicional.  O chinelo de um lado só já existia. O que fizemos foi, a partir de um difícil trabalho de engenharia, adaptar o conforto em ambos os lados, um trabalho de ressignificação. Mesmo já existindo, ninguém assumiu como um produto bonito, funcional e que não fosse descartável. Isso pra mim é fazer o diferente e não o mais do mesmo.

 

Você esperava essa repercussão para o projeto?

Esse projeto mexe com o modelo de negócio. Eu visitei diversos países e percebi que, em muitos locais, os profissionais expunham o produto com dois pés. Aí virou par, né? Então, a cabeça ainda é de quem vende par. Ainda tem coisa para melhorar. Eu não tinha expectativas, meu trabalho maior foi em fazer a empresa como um todo aderir ao projeto. A empresa sempre calculou em pares, então foi uma loucura. Mas, foi uma prova que ela está sempre aberta a coisa nova.

Você é arquiteto. Como chegou no design de produto?

Cheguei pela minha ansiedade de fazer as coisas. Fiz algumas obras em arquitetura mas o time é muito diferente. É o mesmo que fazer livros e jornal. Acidentalmente, fui pra área de calçados.  Acho que fui o primeiro arquiteto a trabalhar com calçados no Brasil há 32 anos.